sexta-feira, 26 de março de 2010

Nossas crianças




Cena 1: Um menino é sequestrado no estado de Alagoas. Atraído por um homem que o trouxe para o estado do Rio. O cretino sequestrador foi preso em flagrante quando explorava José Sergio e mais uma criança na BR 101. Um ano depois do ocorrido, Serginho vai ter um final feliz. Seus pais chegam hoje ao Rio, e o levarão de volta para casa.
Cena 2: O tribunal de Santa Catarina solta( ???) um condenado a 20 anos de prisão depois dele ter matado uma menina de 1 ano e e meio. Gabrielle foi estuprada e estrangulada e a advogada do pedreiro afirma " que o cliente dela foi preso durante o depoimento, mas o mandado de prisão foi expedido apenas no dia seguinte. E que não há provas contra ele e que vai ser difícil a polícia reabrir o caso." Que tal?
Cena 3: O veredicto dos jurados sobre o casal Nardoni vai ser conhecido hoje. Mas antes, acusação e defesa vão dar show de palavras e argumentos diante do juri. Será que o advogado de defesa acredita mesmo no casal? Isabella confiava no pai.
Cena 4: Eu estava sentada no supermercado chique do bairro charmoso em um final de tarde desta semana. Acostumada ao Rio e as rápidas ações dos meninos de rua, vi um garoto se aproximar por trás de uma amiga. Fui calma e rápida. Pedi para a amiga passar minha bolsa bem do outro lado da mesa. Foi ela pegar, levar um susto e o menino já estava ao nosso lado. Olhou para mim e pediu um pedaço de bolo. Fiquei com vergonha de mim. Tirou do bolso três moedas de vinte e cinco centavos e pediu para eu completar para ele comprar o bolo. Fiquei com mais vergonha ainda. Eu perguntei se ele não preferia um pão. Ele foi até a padaria olhou olhou e voltou com os olhos tristes. Eu arrematei. -" É o bolo não é?" O segurança já estava por perto e disse que ele não poderia ficar ali. Eu intervi falando que ele estava só esperando o bolo. A supervisora se aproximou e deu logo uma ordem sem saber que eu já tinha comprado um pedaço do doce. -"Por favor peguem um pedaço de bolo para o menino." Fiquei pensando que ela deveria ter tido uma infância dura por sua atitute e decisão.
Eu olhei para ele e falei:" ganhou dois pedaços heim?!" Sem sorrir, sem me chamar de tia, ele agradeceu e sentou educamente ao meu lado e de minha amiga paralisada que observava tudo. Pedi uma coca para ele. O menino pegou o lanche, as moedinhas, se levantou, agradeceu de novo e contou que ia comer lá fora. Pés descalços sujos de areia, camisa azul e short, ele já estava saindo quando eu perguntei. -"Qual é seu nome? " -"Germano, respondeu baixinho"
-"Bonito. " Aí eu emendei. -"Olha Germano, quando alguém propor a você que cheire, fume ou roube, lembre sempre que tem gente legal que pode lhe ajudar. E que lhe ajudou hoje.
Olhos tristes e determinado, sem um sorriso, ele disse está bem e obrigado. E foi embora.
Dois dias depois do acontecido, Germano não me sai da cabeça. Queria ter feito com ele, o que aquela familia americana fêz com Michael Oher e foi retratado no filme "Um sonho possível."
Mas nós, brasileiros, estamos muito desconfiados, temerosos e não acreditamos em "quase" mais nada. Pobre de nossas crianças.
Hoje é sexta feira e estamos em plena Quaresma.
Bom dia.

11 comentários:

Lulu disse...

"Mais vale um sorriso triste que a tristeza de não saber sorrir". Lembro deste pensamento dos tempos do Assunção. Realmente, é muito triste quando uma pessoa, principalmente uma criança, perde a capacidade de sorrir. Me tocou, esse seu depoimento. Quantas vezes peço perdão a Deus por causa das minhas paranóias e ranços de preconceitos!
Eu fico olhando esses meninos de rua e me perguntando quantos potenciais existem neles a serem explorados e que estão sendo desperdiçados... e me pergunto também: o que estamos fazendo com nossas crianças?
Mas é isso, amiga. Segundo a doutrina espírita, nós vivemos num planeta de provações, de expiações.
Temos que conviver com tudo isso e fazer o possível para dar a nossa parcela de ajuda.
Um ótimo dia para todos, beijos mil!

Eliane disse...

Olá Lulu, obrigada por abrir o Blog e deixar aqui sua opinião.
A gente faz pouco e o Governo nada né?
pena. Ficamos cada vez mais recuados.
Grande beijo e bom final de semana.

Rodrigo disse...

Boa tarde "THE BOSS - Ph" !!!

Ontem aquela "orgia de alegria e descontração".

Hoje, hoje você me deixa sem palavras... quer dizer escrita.

Beijão,

Rodrigo

Eliane disse...

Ai que bom que vc chegou para me animar.
Bem, vc já me conhece. O tempero é tudo na vida não é?!
É preciso temperar. As labaredas nos divertem, os tópicos sérios nos fazem pensar. E agir, quando a gente pode.
Um beijo meu amigo.

Hospital do Rio disse...

Histórias tão distintas mas a do Germano encheu meus olhos de lágrimas. Infelizmente não podemos esperar nada de um governo que só pensa em dar esmolas mas dignidade........
A sociedade civil precisa se unir não só para cobrar atitudes dignas de seus representantes como tb para ajudar instituiçoes sérias que fazem belíssimos trabalhos.
Não podemos desistir.
Se cada um fizer um pouco.....

Lulu disse...

"A gente faz pouco e o Governo nada né?" É verdade. Mas se fizermos um exame de consciência, vemos que quem bota os governantes em seus respectivos cargos somos nós. Elegemos presidente, senadores, deputados, prefeitos, vereadores ... e se formos mais a fundo, constatamos que eles são a projeção de nós mesmos.
Não sei se vou ser a última a comentar este tópico, mas se for me sinto fechando-o com chave de chumbo. Pesada, pesada.
Beijos.

Anônimo disse...

É muito simples sempre culparmos aos políticos por isso ou aquilo.
Uma forma de insetarmo-nos de nossos comprimissos, de nosso dever.
É simples do alto nossos apartamentos, casas bem montadas e cercadas, claro.
O contato com a realidade, a realidade de um pais de gente pobre, muita gente mesmo. assuste, emociona, inibe, cala.
Quem já visitou, propos ajuda a creches, hospitais, pastorais de igrejas???
Não é mole, sem sentir na pele e na consciência esquivar do olhar para o lado e encarar "a vida como ela é."

Lulu disse...

Exatamente, Anônimo. Por isso elegemos quem elegemos. Colocamo-los no poder para que nos representem, projetando-nos neles.

Eliane disse...

Cada um fazendo sua parte, ajudando os que nos cercam, a nossa comunidade, o nosso bairro, e elegendo pessoas de bem.
Pode ser um caminho seguro para um mundo mais justo.
Não há nada demais em ser rico, ter casa boa e etc... É exatamente esta responsabilidade que se espera dos mais afortunados não é? Ajudar.
Obrigada a todos por estarem mais uma vez por amigo.
Sejam muito bem vindos com as opiniões diversas.

Eli corrigindo disse...

por aqui...por aqui
...estarem por aqui

Casal de Cisnes disse...

Outra cena de um sonho possível: A mãe de 26 anos tem que trabalhar como domestica desde 2009. No passado, teve que catar resto de comida no lixo da feira livre com sua mãe para sobreviver. A medica do hospital publico pede uma ultrassonografia de seu filho de 11 anos para verificar a necessidade de nova cirurgia no testículo O casal da casa em que ela trabalha se comove e leva o menino para um exame particular O menino retribui com belíssimos desenhos a mão livre O casal soube que ele faz verdadeiras obras de arte desenhando no chão em Saracuruna e empresta um computador e um scaner para copiar e armazenar sua criação. E sonham que ele será famoso um dia, não nas páginas policiais, mas sim em exposições de arte...