sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O carnaval de 1984




Em 1984 um novo governador reinava no Rio. Ele havia sido eleito em 1982 e assumiu a pasta em 15 de março de 1983, ano da inauguração da Rede Manchete de Televisão. Desde sua candidatura, os donos da Bloch Editora o apoiavam. Enquanto a Rede Globo tentava de todas as formas fazer com que ele não assumisse o Estado do Rio. Mas Leonel Brizola se tornou o governador. E a Manchete inagurou em junho sua emissora. Ganhou a grande oportunidade de sua história ao transmitir o primeiro desfile das escolas de samba em um novo palco. Vou explicar: até 1983, o desfile das escolas no Rio, era realizado em instalações provisórias e com um monta e desmonta sem fim. O governador resolveu acabar com a orgia financeira das empresas e surgiu o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, de Oscar Niemeyer. Vi toda esta movimentação como repórter. Em 1983 fiz o carnaval da radio Nacional e simultâneamente (para teste) o da Rede Manchete já em fase de gravações de material para arquivo. Junto com o governador e a nova emissora, eu também entrava em uma nova fase de vida. Pessoal e profissional. A nova passarela do samba exigia uum estudo detalhado técnico para transmissão dos desfiles. A Globo então declinou o convite para a transmissão, mas a Manchete aceitou o desafio. Com um time de engenheiros e técnicos jovens e brilhantes, cheios de determinação, o departamento praticamente se mudou para a Avenida e megulhou nos detalhes. Um trabalho fantástico. Lembro-me bem deste ano inesquecível. Todos nós de camisas vermelhas e amarelas e com a letra M no peito, orgulhossíssimos. Ao nosso lado, os companheiros que faziam a Revista, que já era um sucesso de vendas. Conquistamos de cara o povo, os sambistas e o o Brasil. Quando entramos no Sambódromo em bloco só ouvíamos um coro: Manchete, Manchete, Manchete. O povo amava a TV que apoiou o Governador. Amava o novo, amava o espaço que dávamos para eles. Conquistamos também o respeito da mais ilustre concorrente naquela transmissão.
Ah o carnaval de 1984. De encontros e desencontros. Foi outro divisor de águas na minha vida pessoal e profissional. Eu quando era garota nem gostava tanto de carnaval assim. Mas minha profissão me deu tudo na vida. Tudo mesmo. E me despertou este amor escondido e apaixonado pelo carnaval e por todas as escolas de samba. Descobri os bastidores de carnaval na Rede Globo. Ali aprendi tudo que sei. Desde a venda de ingressos, os blocos da Rio Branco, os ensaios de madrugada( para desespero de minha mãe) na quadra da Portela com Wilma, porta-bandeira. Na Rede Manchete ganhei a consolidação, o respeito e vivi a paixão pelo carnaval e pela vida bem ali na Avenida.
Mas foi o ano de 1984 que marcou o meu carnaval. E foi um dos que reuniu os mais lindos sambas enredos da história. Contos de Areia da Portela, Skindó Skindó do Salgueiro e Yes Nós Temos Braguinha da Mangueira.
Meu diretor, Mauro Costa, me colocou na concentração naquele 1984. Eu queria ficar ao vivo, e fiquei muito injuriada. Todos queriam ficar ao vivo. Um status. Ele me jogou no lugar mais escondido, nos pré-gravados, mas sabia o que estava fazendo. Conhecia minha experiência e agilidade. Mas eu revoltada resolvi me desafiar. Me superar. Tive -para isso- o apoio de dois produtores competentes e da amiga Célia Serafim. De folga, ela colou em mim. Sabe tudo sobre carnaval a Célia. Ninguém passava por nós sem um flash, uma imagem, um registro. Fizemos barba cabelo e bigode. Resultado? O Momo de Ouro para a melhor repórter do carnaval. A Manchete me escalou para pré-carnavalescos, bailes, apuração, tudo. E eu lá. Firme. Foi um momento único na minha vida. Inesquecível. De encontros, desencontros, da constatação da doença longa de minha mãe e de uma nova etapa profissional na minha vida.
A Estação Primeira de Mangueira foi a campeã de 84 com o Braguinha. E nós os campeões de tudo. Jovens, brilhantes profissionais levamos também o título de campeões e encerramos o desfile e os trabalhos com um grande bloco atrás da Mangueira.
Bom mas isfo foi há vinte e seis anos. Chegamos em 2010. Mas 84 não dá para esquecer. Aliás nem um carnaval da Rede Manchete. Sei disso porque até hoje, ouço pessoas e sinto os sorrisos da minha geração quando conversam comigo.
Bem, mas passou. Olha o carnaval de 2010 aí gente!!! É hora de preparar a fantasia se você for brincar, hora de fazer as malas se você for descansar. Chegou a hora. Sei viver o carnaval de hoje. Mas não dá para esquecer. Oitenta e quatros horas no ar, no ano de 84. Todo carnaval é assim, sempre roda a vinheta na minha cabeça, sempre: "Pode preparar o seu confete que este ano na Avenida tem Manchete. " Ter não tem . Mas ela vive em meu coração.
Feliz carnaval, bom descanso, aproveitem. E recordem, acessem os links.
http://www.youtube.com/watch?v=lk2B4s6Duro
Mangueira, campeã de 1984
http://www.youtube.com/watch?v=rFMm7wcE0dg
http://www.youtube.com/watch?v=UVPpN3T_iUQ&NR=1

18 comentários:

Rodrigo disse...

Bom dia!!

É o tempo passa, como um flash...

Em 1984, saia de casa para ingressar em estágio que um ano a frente se consolidaria em uma efetivação.
Naquele fevereiro de 84, você, "The Boss", mais uma vez imprimia sua MARCA! Eu iniciava a construção de uma carreira.

Sua danada, me fez pensar...
Recordar, nostalgiar mas, também como se anda e deixa para trás os passos no caminho.

Beijão,

Rodrigo

Eliane, a danadinha disse...

Bom dia Rodrigo. Adorei: " ME FÊZ PENSAR..." Bom pensar mesmo para ver que o tempo passa sem dó nem piedade. E que a hora de viver!
Feliz carnaval, do jeitinho que for, estamos aqui, construindo uma nova história de amizade. Bom isto!

Dragão batendo asas p A FOLIA disse...

E lá vamos nós pela avenida com mta alegria comemorar mais um Carnaval q é como diz aquele música linda:
Foi um rio q passou em minha vida ... grandes momentos, lindas recordações, a vida é isto e apenas isto levamos conosco portanto vamos que vamos curtir esta animadíssimo e calorento carnaval, INTÉ GALERA, breve retornaremos, beijins, beijins

Eliane, a carnavalesca disse...

Foi um rio. Tubulento e maravilhoso.
bom carnaval Dragão Dourado.

Ro momentos delicados para LILI disse...

lembranças... como é bom ter estas gavetinhas cheias de vivências!
Só minha amiga "super" para relatar tão bem a história. Me senti lá no Carnaval de 84.
Noticias de LindaZ, estive com ela esta semana. terminou seu ciclo de aplicação e, está lentamente se recuperando e administrando sua vida pessoal com esse pequeno retiro. Ela me disse que não está deprimida nem triste apenas, precisava deste tempo "sabático" como brinco com ela, para renascer em algumas coisas. Tb tenho muita saudade dela, pois quando não falavamos ao telefone, ou era pessoalmente ou sempre um carinhoso email. Mas ela estara brevemente entre nós1
Abraços Apertados carregadinhos de coragem. Também ando ´passando por momento delicados, não referente a doença mas na vida profissional, melhor né!

a vizinha disse...

BONS VENTOS DA SERRA PRA QUEM VAI FUGIR DA FOLIA !

Kiki disse...

O carnaval da epoca da Manchete era muito melhor, sem duvida! Hoje é tudo igual, nem emoção tem....Mas uma coisa é certa, o "foco" do carnaval esta mudando: blocos. Meus filhos sempre iam passar carnaval em Olinda ou na Bahia, agora ficam no Rio, eles e muita gente que conhecemos. Escreva ai, proximos anos o sambodramo será apenas para turista e o carioca vai vibrar na rua, ou já é assim?

Alexandre F Maurity disse...

Eliane,

Esse blog foi nostálgico. . .

Trabalhei nas duas emissoras, Globo e Manchete respectivamente nessa ordem e, foi um aprendizado de como fazer bem feito.

Aprendemos que um minuto fora do ar no horário nobre significava grandes perdas financeiras para a emissora, então o empenho era pleno.

A Globo, foi o meu primeiro estágio e emprego durante a escola técnica. A Manchete montou, sem falta modéstia, o melhor staff técnico das emissoras de TV e, eu fazia parte dessa turma, rssss.

Ainda sobre as estruturas de andaimes que montavam as arquibancadas na Marquês para os desfiles, estava na avenida e havia rumores que uma das estruturas podia desabar, foi montada uma câmera filmando 100% dos dias de desfile e, graças a Deus foi apenas boato.

A piada que rolava na época da inauguração da Manchete; “Perguntaram ao Dr. Roberto Marinho se ele se preocupava com a Manchete, e ele respondia, que não havia preocupação alguma, pois ele possuía um aliado na emissora, que era o . . . “ o nome não digo, mas, a Elaine conhece!!!

Bons tempos!!

Beijos,

Mônica Miranda disse...

Lili,

O carnaval de 84 também foi marcante para mim. Sabia todos os sambas na ponta da língua e o do salgueiro era o melhor.
Esse texto também me fez pensar... e vou além é de arrepiar!! Só que fez parte da família Manchete tem essa sensação gostosa. Desde 1992 produzi os pré-carnavalescos e que energia boa.. Só mesmo você para relembrar os amigos que deixamos para trás e tantos outros que graças a Deus, ao orkut e aos emails continuamos mantendo contatos.
Mas como dizia a música do salgueiro na época " foi um vento tão menino que soprou o meu destino pelo mar..." e assim continuamos a vida com esses ventos direcionando o nosso destino e mudando a direção sem aviso prévio. Por isso que fazemos parte do "Bloco da resistência".
beijo querida amiga. Devo a Manchete a sua amizade.
Bom carnaval
Mônica Miranda

Alda disse...

Olá Eliane! tenha um óptimo fim de semana, e bom Carnaval!
Beijinhos

Bia disse...

Boa tarde,

Hoje foi como o "Túnel do Tempo". Lili, só vc. Muito legal!
Deixo aqui o nome da pessoa que fez a Mangueira retornar na avenida em 1984, já que era a última escola a desfilar. Foi Pedro Paulo, diretor de harmonia na época. Tudo de improviso..., ele gritava: - Vamos voltar... vamos voltar... e a Mangueira ouviu. Quem viu nunca esquecerá...rs
Bjs e ótimo carnaval pra todos nós.

Lulu disse...

É tão bom quando se tem uma história de vida que permite um flash back como este seu... cheio de conquistas, realizações e alegrias, trazendo tão gratas lembranças.
Eu por muito tempo assinei a revista Manchete. Assistia a diversos programas da emissora e uma das melhores novelas que assisti em minha vida foi Pantanal. Tanto que quando repassou há algum tempo atrás eu não perdi um só capítulo. E a esposa de Adolfo Bloch (é Adolfo, não é?) tinha um programa (não lembro mais o nome) que eu não perdia de jeito nenhum... nossa, como eu a admirava, que mulher doce, gentil, quanta classe! Lamentei profundamente quando a TV Manchete fechou.
Um ótimo carnaval para todos, para quem vai brincar, boa folia, para quem vai descansar, bom descanso. Eu vou ficar acompanhando pela televisão e torcer por minha querida Portela.
Beijos carnavalescos para todos!

Isabela Guedes disse...

É muita pena a Manchete ter acabado. Infelizmente, o Bloch não teve herdeiros para dar continuidade a bela história desta querida emissora.

Caso a Manchete estivesse ainda na ativa, eu ficaria cada vez mais apaixonada.
Pela Manchete, apesar de ainda estar cursando o ensino fundamental, na época, já tinha uma "queda" pelo jornalismo, graças aos programas da minha emissora favorita. Machete para Sempre.

Bjos,
Isa.

Isabela Guedes disse...

Bom carnaval para ti.

Bjos afetuosos,
Isa.

Esmeraldo disse...

Oi Eliane, muito legal esse revival da sua história. Trabalhei naquele carnaval pela revista e testemunhei a cena a que você recorda: o povão aplaudindo a Rede Manchete. Pelo que soube, na época, a Globo abriu mão da cobertura do carnaval por dois motivos: a oposição ao Brizola juntou-se à opinião de uma diretora de telejornais para quem cobertura dos desfiles tomava muito tempo (e naquele ano, acho, pela primeira vez, os desfiles foram divididos em dois dias) e atrapalhava a programação normal da emissora. Para a Globo, foi um mega erro, que abriu espaço para a Manchete brilhar em uma cobertura excepcional. No ano, seguinte, a Globo rasgou a fantasia política e voltou para a avenida em parceria com a... Rede Manchete. E o que vocês fizeram serviu de modelo para as coberturas nos anos seguintes. Amanhã estarei trabalhando no Sambódromo, um espaço que me traz fortes recordações de tantos colegas que por lá passaram e o seu post acentua essa saudade. bjs

deBarros disse...

Parabens Eliane, pela sua história nessa gloriosa provisão. Desconfiava quem você era. Com a foto não tive mais dúvidas. Eliane Furtado
Eliane, enquanto você largava o couro na Sapucaí, eu na retaguarda, aguardava o seu trabalho, na Redaçào da Revista Manchete. Cada um no seu posto ajudava a montar, você na Televisão, as imagens do desfile das Escolas e as suas entrevistas com passistas e celebridades para a transmissão desse grande espetáculo – ao vivo – e os repórteres e fotógrafos da revista, tambem com as imagens e entrevistas para a montagem final do Carnaval nas páginas da revista Manchete. Tudo era jornalismo e como ,jornalismo é paixão, estamos aí recordando os tempos que vivemos nos Carnavais do Rio de Janeiro.

Lulu disse...

Que depoimentos maravilhosos, substanciosos... dá para ver quão apaixonante e rica é a profissão do jornalismo... :-))

Eliane Furtado disse...

Meus amigos e minha torcida, meu coração hoje está na Sapucaí. No carnaval de 2010. Que maravilha estar viva!